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O valor da pele

Na última Sexta-Feira fiquei pensando no valor da pele.

Para Wikipédia pele (cútis ou tez) significa, em anatomia, o órgão integrante do sistema tegumentar (junto ao cabelo e pelos, unhas, glândulas sudoríparas e sebáceas), que tem por principais funções a proteção dos tecidos subjacentes, regulação da temperatura somática, reserva de nutrientes e ainda conter terminações nervosas sensitivas.

Para a Bruna de 13 anos atrás quando foi diagnosticada com vitiligo, a pele significava o órgão responsável por causar incômodo, vergonha e sofrimento quando saía de uma dolorosa consulta com laser ou esquecia de passar maquiagem e algum estranho abordava perguntando o que eram aquelas manchas brancas e se eram contagiosas.

Durante muito tempo o olhar dessa “Bruna” me acompanhou e me esqueci de todos os prazeres que a minha pele me proporciona. O primeiro passo para mudar essa paisagem mental foi parar de fazer tratamentos que me machucavam, e jogar fora todos os comentários rudes que ouvia e a autopiedade que tinha.

Só de me libertar desse lixo mental abri espaço para sentir. Passei a ter empatia pela pele que “ganhei” e me permiti curtir com menos julgamento ou vergonha.

A pele é a nossa sensível fronteira com o mundo externo e com os outros seres, é o órgão que nos permite sentir o calorzinho do sol, o frio do primeiro mergulho no mar gelado, as gotas quando começa chover (sempre que estou na duvida se começou a garoar, “olho” para o céu para sentir as gotas caírem no meu rosto e confirmar se devo sair correndo pra não me molhar ou não), sentir carinho e o toque do beijo, ela nos lembra do tempo nos dando rugas e conta histórias da nossa vida pelas marcas de cicatrizes e tatuagens, é ela que arrepia ao ouvir uma música que nos emociona e nos faz transpirar em noites apaixonadas ou depois de correr para não perder o ônibus.

Ela é tão rica de significados e nos permite tantas sensações que poderia passar horas dizendo sobre as vantagens de tê-la. Mas estamos sempre tão preocupados com nossos problemas, cicatrizes e manchas que focamos em se livrar das imperfeições carimbadas nela, nem que pra isso precise machucá-la, e nos esquecemos dos prazeres. Até o Google quando se coloca na busca “Pele” vem primeiro o rei “Pelé” como resultado (haha)! Tudo bem vai?! A internet não sabe como é ter esse órgão, mas nós sabemos! Então que tal deixar a ausência de pigmento de lado e aproveitar melhor as sensações que ela expõe sobre coisas internas e sentir mais arrepios, banhos quentinhos e cafunés sem esconder as marcas ou se preocupar com o que os outros vão pensar delas?

#maisarrepiosporfavor

foto: autorretrato  

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

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