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A arte sublima a dor

Quando as manchas começaram crescer e chamar mais atenção, iniciei tratamentos mais fortes, como o Excimer que contei no último post, os médicos pediram para eu tirar fotos todos os mês para acompanhar se os tratamentos apresentaram alguma melhora e documentar o surgimento de novas manchas.

Aquelas fotos me causavam grandes angústias, ver as lesões aumentando e a melhora quase nula fizeram eu parar de olhar essas imagens terríveis. Eu apenas clicava o mais rápido possível pelo celular e mostrava em alguma consulta quando o médico me solicitava. Era uma relação muito estranha, pois sempre amei fotografar tudo que via pela frente, mas as da minha pele me traziam só tristeza e desânimo.

As coisas só começaram a mudar com o clique da Victória, das minhas mãos em uma Jabuticabeira. Passei alguns dias contemplando a foto, parecia que um portal tinha sido aberto, me sentia feliz olhando aquela imagem e comecei acreditar que poderia transformar minha dor em outros sentimentos.

Logo que comecei a fotografar a pele, mostrei para minha mãe um dos primeiros resultados. Animada com o processo que eu iniciava, ela me disse que aos seus olhos, a arte sublima a dor. Foi exatamente isso que aconteceu. Retratar as manchas despertou um sentimento de compaixão, uma compreensão de que elas faziam parte das minhas imperfeições, e que eu poderia ver beleza em aceitá-las. Aos poucos meu olhar atendo ao mundo externo passou a inserir a minha pele, não podia ver um manequim de loja com as mãos descascadas (Sim!! 80% deles tem vitiligo, repare da próxima vez que for ao shopping. rsrs) que já tirava o celular do bolso para fotografar as nossas mãos juntas.

Esse exercício tornou-se encantador e divertido, e foi se transformando. Sempre que encontrava amigos fotógrafos pedia para eles fotografarem minhas manchas pelo olhar deles. Assim criei um acervo de fotos poéticas cheias de amor e verdade. As manchas que continuaram em movimento, já não me causava mais tristeza nem desânimo ao ver retratadas. Se tornaram “Um quadro de artes plásticas em construção” (como meu namorado descreve a minha pele). Ver os diferentes resultados que minha pele causava, viraram bóias salva-vidas quanto tinha que encarar o espelho diário. Lembrar que podia fazer algo belo com elas acalmavam os meus anseios e me encorajava mostrar para o mundo.

 

(foto: Késsia Riany)

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

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