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A dolorosa luz azul

Em 2011 no meio de várias despedidas, mudanças e depressão fiz um tratamento chamado Excimer. Era um aparelho parecido com uma arma de filme de ETs que projetava na pele com vitiligo um laser na cor azul. Não sentia nada na hora da consulta, me deitava em uma maca, colocava óculos de plástico escuro para proteger meus olhos e o aparelho “extraterrestre”, que parecia ser pesado de segurar, apontava a luz sobre a pele exposta.

Logo no primeiro dia do tratamento assim que conheci a fisioterapeuta, responsável por “aplicar” o laser, foi empatia à primeira vista. Silvia era diferente de todos os outros profissionais que procurei durante o tratamento. Ela era amorosa, sempre tratava com muito respeito e carinho a minha fragilidade por ter vitiligo. Ir nas consultas e conversar com ela sobre a vida, as desilusões amorosas e os sonhos era um respiro bom em meio ao furacão que minha vida estava da porta pra fora do consultório.

O procedimento era rápido, como não tinha muitas manchas, durava mais ou menos 20 minutos. O grande problema era que horas, às vezes alguns minutos, depois a pele começava arder muito. Ficava quente como se tivesse saindo uma queimadura de dentro para fora. Algumas lesões ficavam bem vermelhas e como o rosto é mais sensível, praticamente todas as vezes formavam grande bolhas de queimaduras ao redor de toda a boca. Só de encostar ardia demais. Beijar, sorrir, passar batom era difícil. Sentia vergonha pois meu rosto estava sempre machucado e dolorido. O procedimento se repetia de 15 em 15 dias, era o tempo que a pele demorava para se recuperar para começar tudo novamente.

Mesmo com dor eu pensava que era temporário e que em breve eu me veria livre das manchas. Em poucas consultas os pequenos pontinhos de pigmento começaram a dar o ar da graça em algumas lesões o que me deixava cheia de esperança. Algumas voltavam a despigmentar e outras pigmentavam toda a lesão.

O tratamento durou quase um ano, mas infelizmente até hoje não consigo dizer se houve uma melhora significativa, pois no mesmo período tive depressão e parei de prestar atenção no meu corpo. O emocional influencia na aparição de novas manchas. Em 2012 com a mudança de emprego meus horários e rotina já não eram os mesmos e precisei interromper o tratamento. Mas o carinho e a saudade das conversas com a Silvia carrego comigo até hoje. Sem falar que era muito divertido aguardar na sala de espera e olhar ao redor e ver vários manchadinhos juntos em um pequeno espaço.

 

(foto: Isabela Peasson – 2017)

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

  • Adriano

    Ainda bem que passou esse tempo difícil Bruna

    maio 9, 2017 at 4:41 pm Responder
  • patricia

    O laser não deve ser doloroso. A dose a see
    R aplicada deve deixar a pele levemente rosada 12h depois. Essa é a dose correta. Pacientes não tem obrigação de saber isso, mas deveriam ser informados pela equipe para que pudessem avaliar melhor o tempo ideal. Outro ponto, qualquer tratamento a base de luz deve ser feito no mínimo 2x/semana. Julgo ser melhor pegar 10 minutos de sol 3x/semana a fazer laser que é um tratamento caro e com eficâcia semelhante ao laser.

    junho 4, 2017 at 4:40 pm Responder

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