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Outras Peles | Infância sem cor

Adoro quando recebo mensagens de leitores dividindo suas histórias comigo! É lindo ver como temos coisas em comum e que não estamos sozinhos! A linda Stefani me escreveu um recadinho e contou um pouco da sua história! Temos quase a mesma idade, a mesma doença, a mesma cor de cabelo, mas uma grande diferença, ela foi diagnosticada ainda quando criança, o que fez ela enfrentar muito mais preconceito na época.

Com vocês Stefani Brassaroto:

Descobri que tinha vitiligo aos 4 anos de idade, um pouco diferente da maioria das pessoas onde o vitiligo já começa na fase adulta. Nesta idade eu ia para a pré-escola, me lembro que eu desenhava e brincava o dia todo. Nesta fase eu não entendia muito bem o porquê que algumas mães não deixam os seus filhos brincarem comigo, na porta da escola sempre havia um sermão nos meus amigos quando a gente se despedia e as mães me olhavam meio sem graça.

Quando cheguei no ensino fundamental, eu já entendia algumas coisas e começaram os famosos apelidos (que hoje chamamos de Bullying), essa foi a pior fase da minha vida! A vaca malhada era o mais leve de todos, então imagine o resto. As pessoas não chegavam perto de mim porque diziam que era contagioso, as mães falavam na reunião de pais que achavam perigoso a escola não tomar nenhuma providencia sobre isso, alegando que os alunos corriam risco. Isso mesmo, falaram exatamente isso que você acabou de ler! A ignorância sobre o assunto era tanta que achavam que só por estar no mesmo ambiente iriam pegar também.

Em meio a essa crueldade com uma criança, aos poucos fui fazendo algumas amigas que entendiam que o vitiligo não era contagioso e minhas machinhas não mudavam em nada a nossa amizade. Mesmo assim me sentia a pior pessoa do mundo e queria muito colorir de qualquer jeito essas manchas do meu corpo. Fiz todos os tratamentos da época, usei pomada, fototerapia, tomava sol no horário permitido, tomei comprimidos e cheguei a fazer um tratamento que queimava a parte do vitiligo para incentivar a produção de melanina. Todos os tratamentos foram em vão, apareceram outras manchas e desapareceram algumas, mas a doença sempre estava lá. Não queria que ninguém visse o vitiligo, vivia com as mãos fechadas, não pintava as unhas e só mostrava quando necessário.

A tormenta não era só na escola. Nas ruas ao perceber meu vitiligo, algumas pessoas não colocavam as mãos onde eu tinha segurado. Sempre tinha um olho torto e quando alguém falava sobre o assunto só diziam absurdos como ‘nossa você é tão bonita, mas tem vitiligo né’.

O preconceito não ficou na infância, aos 18 anos, em um dos dias mais importantes da minha vida, quando fui tirar minha CNH no Poupatempo, na hora de tirar as digitais adivinhem… a atendente deu um pulo da cadeira jogando a minha mão longe. Nervosa, perguntou porquê eu não avisei antes e enquanto lotava as mãos de álcool dizia que estava tirando o vitiligo dela.

Como se não bastasse esse processo difícil, em 2011 tive TEPT (Tensão de Estresse Pós-Traumatico) com as crises de ansiedade o meu vitiligo desenvolveu ainda mais, eu já tinha nas mãos, pés, boca, axila e umas pequenas manchas no corpo. E a partir deste momento a minha vida começou a mudar, eu já tinha 23 anos entendia muito melhor as coisas, as consultas no psicólogo foram essenciais para a aceitação de tudo aquilo que estava passando e um namorado da época (que não se importava nenhum um pouco com as minhas manchas) me ajudaram DEMAIS!

Passei a me aceitar do jeito que eu era, o preconceito não me importava mais, durante esse longo período, falou-se mais sobre o vitiligo e as pessoas entenderam que era uma doença de pele como outra qualquer, parei de usar maquiagem que escondiam a mancha da boca, comecei a pintar minhas unhas de vermelho pois, adorava ver o contraste do vermelho, branco e o tom da minha pele. Eu queria mostrar para todos que eu adorava ter vitiligo, que era/é lindo ser assim.

O modo de ver a vida e as relações humanas também mudaram para melhor, passei a rir dos olhares tortos. Aos 29 anos me sinto feliz e grata por ter a doença, não consigo me ver sem as minhas manchas. Elas fazem parte de mim e da minha história. O vitiligo mudou o meu jeito de ver a vida e evoluir como ser humano.

É libertador e gratificante aceitar.

Stefani Brassaroto

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

  • Mayra

    Tenho muito orgulho dessa minha amiga de uma vida toda! E com certeza ela é muito mais linda do jeitinho que é! Uma pessoa linda por dentro e por fora, sem dúvida muito melhor do que muitas pessoas que não possuem doença alguma! Parabéns pela matéria!!!!

    abril 26, 2017 at 8:18 pm Responder
  • Diego Fávero

    Isso aí, Sté! Já conhecia o blog, sigo a Bruna no Instagram e acho lindo os desenhos de vcs! Seja feliz com a saúde, inteligência e beleza que Deus deu pra vcs. Para nós amigos e família, não muda NADA. Minha mãe tem e a amamos assim, do jeitinho que é. Sabemos do preconceito das pessoas, mas o que importa são os amigos e familia que amam do jeito que for. A beleza do coração não supera nenuma! Seja muito feliz!!

    abril 26, 2017 at 8:38 pm Responder
  • adriano

    ” É gratificante e libertador aceitar”

    É mesmo !! É pura liberdade e muita gratidão a aceitação . Valeu !!! Mais uma história incrível !

    abril 27, 2017 at 4:48 pm Responder
  • Diana

    Que difícil, Stefani! E também quanta força!!! Obrigada por compartilhar sua força! 🙂

    abril 29, 2017 at 10:14 pm Responder

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