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Outras peles | As lentes que nos acompanham

É com um enorme prazer que hoje a aba “Outras Peles” estreia com a maravilhosa Jana Viscardi*!
Jana abre em grande estilo a seção que conta outras histórias que não a minha. Tenho certeza que assim como eu, você sairá inspirado e apaixonado por ela!

Como vocês, Jana Viscardi:

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AS LENTES QUE NOS ACOMPANHAM

Era um exame de rotina. Paciente da doença de Crohn há alguns anos, eu estava já acostumada ao preparo para a colonoscopia, o procedimento em si e o despertar pós propofol. Naquele dia, tão tranquila estava com tudo aquilo, que havia até mesmo tomado uma grande decisão junto com o marido: íamos embora para a Suécia em quarenta dias. Era fazer o exame e começar a contar para os familiares. Eu não contava, no entanto, com o choque daquele despertar: dopada de morfina, uma equipe médica ao meu redor, lá estava eu sendo informada de que o exame não tinha corrido bem e eu tinha uma perfuração no intestino que deveria ser reparada imediatamente. “Não, não, estou indo embora para a Suécia. Onde está meu marido?”. Samu, caminho descohecido, teto branco, cheio de luzes, equipe de cirurgiões. Susto. Pavor. Nada era maior do que meu medo intenso de perder a vida ali. E enquanto eu ouvia os prognósticos médicos, procurava me atrelar a um fio de sanidade que parecia restar em mim. Eu estava entrando no centro cirúrgico. E lá eu permaneceria por algumas horas.

Antes mesmo de abrir os olhos, ouvi os sons que vinham da UTI. Bips de máquinas, vozes de médicos e enfermeiros, sons de macas se movendo. Ainda zonza da cirurgia e das notícias de última hora, decidi que não levantaria o lençol da cama. Não queria ver o que tinham feito comigo. Na minha cabeça, a fala da médica: “provavelmente colocaremos uma bolsa de colostomia, certo?”. Pisquei os olhos inúmeras vezes: estava segura de que estava sonhando, de verdade. Pisquei os olhos inúmeras vezes novamente, e toquei meu próprio braço. Eu estava ali.

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Ao despertar outra vez, sem saber que horas eram naquele quarto de luz artificial forte, dei uma espiadela. Apenas alguns pontos, mas uma grande – e terrível – novidade: um acessório atrelado à minha barriga agora fazia parte do meu corpo. Não sentia dor física, mas uma grande decepção me abateu: eu não era mais a mesma. Aquela bolsa estava mesmo ali. “Entendeu?”, repetia a voz da médica em minha cabeça.

Seguiram-se dias longos, intermináveis entre aquele quarto de UTI e o quarto do hospital. As enfermeiras vinham trocar as partes da bolsa, limpar o ferimento, olhar a cirurgia. E me perguntavam se eu queria acompanhar, aprender. Eu disse não todas as vezes – e virava o rosto para não ter de me deparar com aquela parte do corpo que, agora, estava fora de mim. Eu tinha medo de mim mesma, daquela parte de mim que se apresentava viva diante de meus olhos.

Dez dias depois, estava eu na casa de minha sogra, entregue a uma dor emocional inenarrável. Alheia ao meu próprio corpo, não sabia bem o que fazer com ele: como andar, como deitar, como dormir, como me mover. Sozinha no quarto que já tinha sido meu, sentei na cama e chorei. Atrelado à minha barriga, aquele acessório parte de mim, a bolsa de colostomia.

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Foram vários os dias em que chorei novamente. O primeiro banho sozinha, o primeiro banho sem aparato, o primeiro olhar no espelho, com aquele corpo novo, velho, cansado. Eu não me sentia ali – era como se tudo fizesse parte de um terrível filme dramático, um pastelão, e eu havia sido teletransportada para dentro dele.

Mas o tempo, bem, o tempo é um grande amigo. E o choro foi se espaçando. As emoções, se acomodando. Interessando-me aos poucos pela vida novamente, assisti a um documentário sobre mulheres gordas que me fez pensar fortemente sobre a relação que eu vinha estabelecendo com meu corpo pós-cirúrgico: por que tanta dor e tanto medo, por que tão pouca empatia e aceitação? E então, um estalo: se me amedronta o olhar do outro sobre mim e se eu mesma me amedronto diante deste meu novo corpo, é apenas mudando a maneira como me vejo que serei capaz de enfrentar o olhar desse outro.

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Foi então que Luciana Troccoli, fotógrafa e amiga, emprestou seu olhar e suas lentes para reconstruir meu olhar sobre mim. Diante de um por do sol tranquilo, nas areias quase desertas da praia de Vilas do Atlântico, na Bahia, eu me despi do que era grande em mim, o medo, para receber de Luciana o que era grande nela: a generosidade e a leveza no trato com a beleza de se ser o que é. De biquini, bolsa de colostomia à mostra.

E aquele momento me foi libertador. Caminhando pela praia, ouvindo as sugestões da querida fotógrafa, eu me senti aberta para o mundo. O mundo dos que vivem as possibilidades daquele momento em que estão inseridos. O mundo dos que reconhecem suas limitações, mas também seus privilégios e possibilidades. Ao receber as fotos, dias depois, eu me emocionei. Meus olhos marejaram diante de mim mesma. Aquela bolsa, aquela nova parte de mim, era apenas uma parte de mim. Eu continuava ali. Com minhas dores, meus medos, minhas alegrias. Com minha sexualidade, com minha fragilidade. Com minhas vontades, e meus projetos. Porque é o que diz o ditado – a vida continua. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

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Nem todos os dias são simples. Nem todos os dias são pura alegria ou empoderamento. Olhar-se no espelho e ver-se novo, em transformação, diante de uma enfermidade, nos traz um senso curioso da realidade – e do tempo. E para cuidar de mim e desse olhar cotidiano às vezes amedrontador, volta e meia eu revisito aquele dia, aquelas fotos. E me lembro da leveza que transbordou de mim. Porque a enfermidade é sim essa parte de mim, mas apenas uma parte. E a escolha de como lidar com ela, embora muitas vezes solitária, não precisa ser vivida necessariamente só. Se os outros olhares também estão lá, como lentes a nos acompanhar, eu busco hoje resgatar o que há de melhor neles – para viver o melhor que há em mim. Pouco a pouco, um dia de cada vez. Afinal, qual a graça da caminhada se tudo se resolvesse em um passo só?

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(Fotos Luciana Troccoli)

*Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem de 2 anos pela Universidade de Freiburg, na Alemanha. Atuou como coordenadora de Relações Internacionais no SENAI da Bahia. Os temas relacionados ao feminismo permeiam sua historia desde os tempos de graduação. Atualmente, vive em São Paulo. Além de desenvolver, uma pesquisa independente sobre a violência contra a mulher nos espaços universitários, é colunista do Coletivo Minissaia, consultora do projeto Salvador pela Educação e produtora de conteúdo em seu canal “Jana Viscardi”, no Youtube

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

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