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Na revista TPM: Sobre As nuvens na minha pele

Faltando pouco para completar 30 anos fui presenteada em dose dupla! O querido fotógrafo Pablo Saborido me escreveu dizendo que gostaria de contribuir com meu projeto, e na mesma semana que me fotografou, a amada revista TPM me convidou para escrever sobre a relação que tenho hoje com meu corpo desenhado por nuvens.

Compartilho o texto com vocês, espero que gostem:

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SOBRE AS NUVENS NA MINHA PELE

É sábado de manhã e estou a duas semanas de completar 30 anos. No apartamento alto do edifício Copan, no centro de São Paulo, o sol entra por janelas enormes e ilumina todo o quarto de paredes brancas enquanto encaro as lentes do fotógrafo. Não tenho medo nem roupa. Que mulher é essa?, me pego pensando.

A resposta depende. Na minha cabeça de menina, a mulher de 30 anos é casada, tem dois filhos e nenhuma mancha na pele. Já na mente de jovem, essa trintona é chefe, venceu na vida — com marido e os dois filhos incluídos — e reverteu qualquer problema. Mas hoje, a pessoa que vira o calendário é outra, não conhece esses futuros do passado. Está separada e feliz. Tem um cargo de chefia, sim, mas nenhum filho à vista. E aprendeu a viver com vitiligo.

Encaro as lentes de Pablo, o fotógrafo do Copan, de um jeito bem diferente que aos 18 anos, quando vi no espelho a primeira mancha. Na época, a visão me assustou, o diagnóstico me causou pânico e dali seguiu-se uma sequência de eventos que me jogaram fundo no poço da autopiedade: levei um pé na bunda, pedi demissão, virei habituée do colo de minha mãe. A cada nova lesão, soluçava um pouco mais alto.

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

  • Jay Myr

    Adorei seu texto! Me fez lembrar de uma pessoa que conheci com esse problema quando estava na 6ª série e fiz com ela o que sua mãe fez: falar que eram desenhos e não manchas. Pela primeira vez eu a vi sorrir desde que a conheci e daí em diante ela passou a ser uma pessoa mais leve e comunicativa. Sorte e fé em tudo que fizer!

    março 21, 2017 at 11:03 am Responder
  • Sirlei Rodrigues

    Bruna.. adorei seu texto! Tenho vitiligo desde os 9 anos de idade, hoje tenho 53.. tratamentos já realizei diversos… resultados diversos… na verdade as manchas vão e voltam… tudo depende do nível de estresse e dos momentos de alegria e tristeza! E assim também aprendi a conviver com elas… fazem partem de mim, não me incomodam mais… mas quando elas ficam muito evidentes é um sinal de alerta pra eu cuidar do emocional! Parabéns pelo seu trabalho e lindas as fotos!!!! Bj

    março 21, 2017 at 3:49 pm Responder
  • Renata

    Bruna, amei o texto! Minhas duas filhas tem dermatite atópica e mesmo sem crise as manchas na pele permanecem. Acho incrível a superação das pequenas e a aceitação de seus corpos. A mais velha tem apenas 4 anos e menorzinha, certa vez, durante o banho, ela me perguntou o porque de a pele dela ser grossa como cobra, e relatou que as amiguinhas a rejeitavam. Aos pouquinhos fui ensinando ela a aceitar dizendo que sua pele é muito especial pois ela é especial. Seu relato tem forma de poesia… Você é linda! bjus

    março 25, 2017 at 10:38 am Responder
  • Gabriela

    Oi Bruna! Que grande prazer descobrir teu blog por acaso e ver esses textos sensíveis e reais sobre um problema que eu tbm enfrento há tempos ( tenho 34 anos, descobri com 19). Fiz vários tratamentos, até com Melagenina Plus, muitos anos atrás, como tu contou em outro texto. Hoje já desapeguei do problema, não trato e aceito ter um corpo que volta e meia ganha um desenho diferente. Nossa pele é única, uma vez um cara me disse isso: “tua pele é teu charme, só teu! Ela te faz diferente de tudo!”

    março 26, 2017 at 10:25 am Responder
  • Diana

    Estou aqui há uma semana de completar 32 anos e há quase 7 anos reordenando minha auto-imagem. Cada mancha nova me leva a me rever. Entender que quando eu sangro, minha pele fala por mim o que eu tento esconder. Lindo seu texto. Me emocionou muito. Poderia ter escrito algumas linhas bem próximas das suas. Somos todas tão diferentes e, ao mesmo tempo, absolutamente iguais. Meu eu criança teria me imaginado aos 32, fodona no trabalho, vivendo sozinha e solteira convicta. Meu eu dos 20 anos imaginaria que eu teria um filho, um doutorado finalizado e ainda estaria casada. Agora estou divorciada, com o emprego que eu sempre quis, iniciando o doutorado. Uma mistura do sonhos das duas com alguns acréscimos e outros projetos deixados para depois ou para nunca mais.

    Quando eu fiz 30 anos minhas lesões entraram em remissão. Meu médico creditou isso a fototerapia uvb de banda estreita. Eu sei que foi porque resolvi ser feliz. Não seja simples. Resolvi e pronto. Sou feliz. Mas aos 30 eu me libertei de mim mesma. Me apaixonei como uma menina. Joguei tudo pro alto. Me arrisquei sem temer cair.

    Nessa época, uma amiga maravilhosa me propôs fazer um ensaio comigo. Ela queria fotografar minhas manchinhas. Elas as achava lindas. Estava começando a repigmentar e estava cheia de pintinhas, o que a fazia lembrar de folhas, flores e frutos. O resultado foi incrível, sensível e forte. Mas eu levei 1 ano e meio para deixar ela publicar o ensaio. Eu olhava para as fotos e não via meramente uma pele desenhadinha. Eu via cada choro, cada tropeço, cada tormento q eu vivi. Me sentia terrivelmente exposta. O problema não era estético, já achava minha pele linda. Mas era a vida sobre a qual ela conta.

    Nessa sexta-feira, depois de muitas idas e vindas, o ensaio viu a luz do dia. Hoje, segunda-feira, uma outra amiga me mandou seu texto. Estamos realmente todas juntas. Obrigada! 😀

    O ensaio [ acompnhado do texto mais tocante]: http://www.pedrinhofonseca.com/aolhonu/ensaios/2017/3/24/diana-dianovsky-por-mavi-dutra

    março 27, 2017 at 10:35 am Responder

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