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Medo de cara feia

Segunda-feira já tem uma má fama por ser o primeiro dia de uma longa semana de trabalho. Em uma segunda qualquer de 2012 acordei atrasada, nesse clima, tomei um banho rápido, vesti uma camiseta amassada de ficar na gaveta e fui correndo para o ponto de ônibus. Naquela época morava em um bairro distante do trabalho e sem muitas opções de transporte público. Perder o ônibus significava um bom tempo de espera debaixo de um sol forte.

Já estava quase na hora de o próximo passar, então fui com passos largos até o ponto. Como sol estava forte, protegi as minhas mãos cruzando os braços. É que, sem a proteção da melanina, a pele fica vulnerável a queimaduras. Por isso, em grande parte dos casos o sol é um vilão para quem tem vitiligo.

Para minha sorte, o ônibus passou assim que cheguei, e eu entrei animada. Fui andando pelo corredor e parei de pé no lugar mais próximo da porta de saída. Na minha frente estava sentada uma senhora. Não muito senhora. Ela estava olhando para frente e não parecia estar prestando atenção em nada, mas foi só eu segurar no corrimão para o olhar dela cair nas minhas mãos. Assim que viu as manchas, fez uma expressão de nojo, se ajeitou no banco e cruzou os braços. A partir dali, fixou a vista fora da janela e assim ficou. Parecia que queria me evitar a todo custo.

Aquilo partiu meu coração. Soltei o corrimão, guardei as mãos nos bolsos e me afastei da senhora para procurar outro lugar. Tive de me esforçar para me equilibrar enquanto o ônibus sacolejava. Por que aquele olhar? O que tinha de tão errado comigo? Minhas mãos causavam repulsa?

A expressão daquela senhora durou no meu pensamento por várias segundas, alguns anos, até. E, quando me vinha à minha mente, colocava as mãos nos bolsos. Perdi muito tempo tentando entender por que causei tanta aversão. Será que ela achou que era contagioso, que era machucado? Nunca encontrei com ela novamente para perguntar. Mas, com medo de ver isso novamente, desde aquele dia passei a andar com as mãos fechadas, nos bolsos ou de braços cruzados. Em dias de chuva ou de sol, em lugares abertos ou fechados, sozinha ou acompanhada. 

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

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