to top

A barriga da chefe

O relógio acabava de marcar 14h na farmácia onde eu trabalhava, os funcionários do segundo período já estavam uniformizados e em frente do único computador aguardando a sua vez de bater o ponto. Eram dois turnos e, por duas horas, o local ficava com a equipe dobrada. Gostava dessa hora por dois motivos. Primeiro, significava que o meu turno estava mais perto de acabar, já que eu entrava de manhã. Segundo, porque com tantos colegas na loja eu podia ir para os fundos e me esconder um pouco enquanto organizava os medicamentos de reposição.

Também aproveitava para me trancar no banheiro quando tinha vontade de chorar. Era lá que eu estava nesse dia, paralisada olhando para o canto da minha boca enquanto as lágrimas caíam sem nem mais aviso prévio. De repente, a porta se abriu com violência. Era Adriana, a chefe — só podia ser bronca. De temperamento forte, ela alternava momentos de doçura e rispidez com seus subordinados. A “loira”, como a havíamos apelidado, também era mãe de uma pré-adolescente, que visitava às vezes a farmácia. E era vaidosa. Estava sempre perfumada e com as unhas feitas.

Enquanto me olhava muito séria e franzia a testa, eu esperava a reprimenda. Mas ao invés disso Adriana começou a levantar a blusa do uniforme até deixar toda a barriga à mostra. Estavam lá todas as marcas deixadas pela gravidez. “Eu tenho só 28 anos. Você acha que gosto disto? Que não sinto vergonha de me expor quando começo um relacionamento novo? Que não sofro para ir à praia?” Tentei balbuciar algo em resposta, mas não tive chance. “Engravidei muito jovem, passei por poucas e boas e ainda carrego as cicatrizes. O que quero te dizer é que cada um carrega suas dores, isso não é privilégio seu, Bruna. Agora pára de chorar e volta pra vida!” Continuei muda, ela arrumou rapidamente o uniforme e saiu do banheiro. Assim, no susto, a “loira” abriu caminho para a minha imperfeição passar. Foi minha primeira grande lição após o diagnóstico.

 

****

 

(foto Luara Calvi Anic)

Bruna Sanches

Sou editora de arte, divido meu tempo entre revistas, fotografias e trabalhos manuais. Tenho vitiligo desde o 18 anos e hoje transformei a minha pele em motivo de orgulho.

Deixe um comentário